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7 de agosto de 2006
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Publicações no Caderno JB Ecológico do Jornal do Brasil
A FUMAÇA QUE MATA
Mais de 1,5 milhão de pessoas morrem por ano vítimas da queima de combustíveis sólidos. Mulheres e crianças são as mais atingidas.
Está escrito no relatório “Combustível para a vida: energia domiciliar e saúde”, lançado recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “metade da população mundial ainda queima carvão, esterco e outros combustíveis para cozinhar alimentos. Esta exposição à perigosa fumaça – incluindo a do nosso popular fogão a lenha – leva à morte, por ano, mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o mundo. Destes, 800 mil são crianças, 500 mil mulheres e 200 mil homens. Os dados alarmantes não param por aí. Estima-se que mulheres e crianças que habitam lares com fogão a lenha respiram o equivalente a dois maços de cigarro por dia e são mais vulneráveis por ficar mais tempo em casa. Para o diretor geral da OMS, Lee Jong-wook, é preciso encontrar alternativas sustentáveis baratas e que diminuam os riscos à saúde humana. “Disponibilizar combustíveis mais limpos e fogões melhores para milhões de pessoas pobres nos países em desenvolvimento reduziria a mortalidade infantil e melhoraria a saúde da mulher”, afirma. A redução pela metade dos quase 3 bilhões de pessoas que utilizam combustíveis sólidos como a lenha custaria, no mínimo, US$ 13 bilhões por ano, dependendo da fonte de energia usada. Tal iniciativa, segundo a OMS, impediria a multiplicação de casos de pessoas com doenças respiratórias. Quem inala a fumaça dentro de casa tem o dobro do risco de desenvolver uma pneumonia e três vezes mais chances de sofrer enfermidades pulmonares.
“Uma mulher que cozinha o dia inteiro num fogão de lenha primitivo equivale a ter fumado dois maços de cigarro. Dos seis bilhões de seres humanos no planeta, dois bilhões e 400 milhões cozinham com madeira. A fumaça da lenha é a oitava causa de morte no planeta.”
Alternativas sustentáveis – Quando, no início da década de 90, o engenheiro florestal brasileiro Rogério Carneiro de Miranda criou um modelo de fogão ecológico para ajudar famílias pobres na América Central, mal imaginava que criara um grande aliado contra a degradação do meio ambiente e da saúde humana. Naquela época, desiludido pelo governo Collor, foi morar em Honduras, na Costa Rica, e ficou chocado com a quantidade de lenha usada pela população local, a maioria pobre, em seus fogões tradicionais: cerca de 70% da madeira do país ia para as cozinhas. A partir deste diagnóstico, Rogério criou o “ecofogão”, que se tornou mais do que um simples e econômico instrumento para preparar alimentos. “Com ele é possível lidar com a lenha de forma sustentável, aproveitando 100% da energia produzida pelo fogo e evitando a inalação da fumaça carbonífera pelos seus usuários”, afirma, acrescentando que sua invenção utiliza 50% menos madeira do que os fogões domésticos convencionais. Mas a maior contribuição do seu modelo ambiental de fogão é a eliminação da fumaça, reforça o engenheiro. Segundo a Organização Mundial de Saúde, trata-se da oitava principal causa mortis no mundo. Depois de disseminar a exitosa experiência em Honduras e na Nicarágua, Rogério trouxe o seu ecofogão para o Brasil, o qual já está sendo adotado em uma série de programas socioambientais.
Projetos sociais – Em Belo Horizonte, capital de Minas, está instalada a sede da Ecofogão Indústria, empresa responsável pela produção e comercialização do fogão a lenha ecológico e que tem buscado desenvolver vários projetos na área social e ambiental. Um deles, realizado em parceria com o Instituto Winrock International Brasil, a Usaid (United States Agency For International Development) – duas organizações internacionais que têm como objetivo garantir a manutenção dos recursos naturais e promover a qualidade de vida -, e a Sociedade São Vicente de Paula, braço filantrópico da Igreja Católica, está mudando a vida da população carente que mora nos arredores da fábrica. Dezenas destes fogões já foram distribuídos na comunidade localizada no entorno da empresa, que recebeu orientações sobre a instalação, operação e manutenção do aparelho. O projeto piloto, que será desenvolvido ao longo de 12 meses e pretende validar o seu funcionamento em termos de durabilidade, economia, funcionalidade e emissão de fumaça, caiu nas graças da população.
Almerinda Rosa de Jesus, moradora da Vila Santa Rosa, uma das agraciadas com o fogão ecológico, aprovou o modelo e está animada com a economia de gás de cozinha. “Uso o ecofogão três vezes por semana e o meu botijão passou a durar 60 dias. Antes durava a metade. Ele é prático, econômico e, com o dinheiro que economizei do gás, já pintei parte da casa e troquei o piso da cozinha e do quarto”, disse ela, emocionada. Quanto à lenha consumida no cozimento, Almerinda usa madeira de caixotes ou de restos de obras que encontra pela rua.
Mais de 70% das famílias do Nordeste brasileiro usam a lenha para cozinhar
Os principais problemas que assolam o nordeste brasileiro hoje estão ligados à questão energética. Cerca de 70% das famílias e 40% das fábricas instaladas na região mais carente do país ainda têm a lenha como sua principal fonte de energia, provocando um sério desequilíbrio ambiental e acelerando a destruição de um dos mais importantes biomas do país: a caatinga. Vítima da exploração predatória e desordenada, a maioria da madeira consumida vem de florestas remanescentes deste ecossistema, que ainda não possuem planos de gestão sustentável.
“É constrangedor ter a lenha como fonte de energia. Mas, na falta de alternativa, precisamos racionalizar seu uso e eliminar as ameaças ao meio ambiente”, desabafa Francisco Campello, coordenador regional do Projeto GEF Caatinga, que busca a melhoria energética da região Nordeste a partir de práticas de manejo sustentáveis. Este projeto está sendo desenvolvido em parceria com o Instituto Jurema e a Agendha (Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia), com o apoio do Ministério do Meio Ambiente. Entre as primeiras comunidades a serem beneficiadas estão Barbalha, Crato e Jardim, no Ceará; e Curaçá, na Bahia, que integram a Biorregião do Araripe (CE/PE/PI) e de Petrolina (PE/BA).
O ecofogão foi escolhido como uma das principais alternativas sustentáveis na solução do problema energético. De acordo com Francisco, “ele utiliza apenas 1/3 da madeira normalmente consumida nos fogões convencionais e com 2 kg de lenha é possível preparar uma refeição para cinco pessoas”, ressaltando o quanto o modelo é essencial para a redução do uso da madeira, um dos biocombustíveis mais usados no mundo, na produção de energia.
Os 32 primeiros ecofogões disponibilizados para o projeto já foram repassados a famílias e associações comunitárias rurais da região de Araripe, que receberam orientações sobre o uso do fogão e participaram de oficinas de conscientização ambiental. Os beneficiados também assinaram um termo de conduta se comprometendo a não comercializar o ecofogão e a difundir o conhecimento adquirido com as oficinas na sua comunidade, que abordam temas que vão desde práticas de manejo até ações de educação ambiental.
Segundo Francisco, estender o projeto a outros grandes centros de difusão, como os assentamentos rurais, também é um sonho que deve se realizar em breve. “O ecofogão é mais um instrumento pedagógico do que um acessório de cozinha. Queremos levá-lo a assentamentos, escolas do campo e apresentá-lo como uma alternativa sustentável, uma fonte de conhecimento”, conclui ele, sem esconder a esperança, força motriz do povo nordestino.